as minorias e a cíclica das revoluções

As mais célebres minorias contemporâneas, eminentes por suas lutas, protestos e manifestações vangloriam-se e notam-se pelos seus clamores, porém, seus gritos de queixa não passam de súplicas, cujas reclamações partem de uma perspectiva inteiramente legalista, pautada pelo desejo de existência respaldada pela indubitável legitimidade concedida pelo Estado e pelo Direito; e se Hakim Bey menciona sobre as revoluções que “o mundo virado-de-cabeça-para-baixo acaba se indireitando” , a potência de revolta, intrínseca nesses indivíduos, acaba por se auto-encaixotar assim que deixam de enxergar uma possibilidade de existência, na diferença, alheia às permissões e à licitude: o clico da exclusão à inclusão legal, consentida e permanente; e se “todos os seus revólveres [do Estado] estão apontados”  , não a caberia a eles criar outras formas, mecanismos, táticas e objetivos de confrontos indiretos e eficientes, mas mecanismos de conciliação.

Hilton Cassiano

paixonite à pós-moderna

Urbano, pós-moderno
Uma gaiola frígida
Bocas, braços, olhos e auto-mutilação
Um pudor: maldito
Bicos se bicam, desejam
Não beijam, se impedem
Se acovardam, se suicidam, abortam
Fetos, desejos e expiação
Nadadeiras se resvalam, desejam
Não se abraçam, se apartam
Se submetem, se prostram, desistem
Plântulas, sonhos e seca
Lentes se esquivam, desejam
Não fitam, se escapam
Se amortecem, se matam, se morrem
Gérmen, paixão e morte

Hilton Cassiano

prisões

Somos presos; e presos pelo rompimento.
Por um olhar, por um gesto, por uma palavra, por um comportamento que rompa.
Que rompa com os contratos, com a moralidade, com a normatividade.
O rompimento é a própria anomalia, e o preso, encarcerado, isolado, banido, o próprio anormal.
É necessário racializar e organizar, observar, controlar e castigar.
Prende-se e estigmatiza-se, educa-se, planifica-se e conserva-se.
O remorso que se espera do anormal encarcerado e solitário é a esperança da correção.
A despersonificação, como técnica e intenção, expia vidas, mas não o crime.
Há o trabalho enobrecedor: uma dose diária é o suficiente para suprir qualquer vazio.
O preso: um excluído na estrutura social…
…na prisão, não está excluído daquilo que estrutura essa sociedade: a hierarquia: é governado fora, é governado dentro.
Há os engendrados nos meandros da normatividade: disciplina posta, anormalidades suprimidas: há vontades, mas há o medo.
Há a insuportabilidade das anomalias: mata-se o louco: a loucura diz verdades, permite espontaneidades ingovernáveis, desobedece, desconforma.
Há a reforma para o estigmatizado, e há, da mesma forma o êxito: o efeito é bom e bem-sucedido…
…o estigma não desaparece; aparece o temor: há funcionalidade nisso: o não-estigmatizado não ousa estigmatizar-se.
Tal governo, tal justiça, tal moral: há quem rejeite. Há quem reconheça um único tribunal capaz de julgar: si próprio¹.
Há a prisão interna: aprisionam-se em tipos: irrompível pela necessidade da sobrevivência: a sobrevivência exige papéis, a vida, liberdade.

 Hilton Cassiano

¹ Adaptado de “só reconheço um tribunal capaz de julgar-me -
eu próprio”. In: HENRY, Emily. Em defesa de um terrorista.
A Gazeta dos tribunais, 27 abril, 1894.

doutrinação e autoridade intelectual

quanto mais me entupo de conceitos, mais Eu quero cuspi-los e me esvaziar deles.
há tanta presunção na intelectualidade academizada que, aqueles que não tomam cuidado, assumem cérebros e línguas alheias em detrimento de uma ótica individual, própria das coisas.
idéias servem para incitar você a criar as suas considerações, mas a maioria brutal é conduzida à fazer reprodutores e sentinelas ideológicos: professores são os que melhor encenam tais papéis.
para os que tentam se aventurar e exteriorizar suas próprias reflexões, um beco sem saída altíssimo se ergue maliciosamente, afinal, os filósofos existem para se adiantar nas reflexões e submeter aqueles que não o são.
tudo já foi pensado, e os desdobramentos são modeladores e moderadores.
seu raciocínio será sempre reduzido a um estereótipo, conseqüentemente apreciado ou estigmatizado a partir dos pressupostos do raciocínio de “alguém” (o que, obviamente, você não é); depreciado ou domesticado, por um mecanismo básico: a manutenção do monopólio apropriado pela academia dos únicos pensamentos válidos e consideráveis…

 Hilton Cassiano

elke maravilha

…rostos pintados no meio da multidão sóbria:
sempre me pareceram técnicas de fuga contra faces tediosamente normais.
divertido!
fuga da normalidade:
me atrai.
suas idéias reluzem tanto quanto suas maquiagens.
soberana de sua própria imagem; uma anarquista!
a Elke é legal.

…e uma modesta compilação de frases legais, Dela:

 

[Sou extremamente política, mas não sou ativista e nunca fui. Não dá certo. Sou anarquista. Há governo, sou contra. Os governos não resolvem, o ideal tem que estar no coração. Não preciso ser de esquerda ou de direita. Nenhuma esquerda resolveu o problema do povo].

[Sou filha da guerra. Acredito na paz, mas nós não estamos prontos para ela. A gente não pode ter paz por enquanto. Não agüento as pessoas que ficam pedindo paz, paz, paz. Quando um nobre, como minha mãe, casaria com um russo fodido? Só na guerra mesmo. Na guerra, ninguém é nada, ninguém é rico, nem nobre, nem porra nenhuma. A guerra nos nivela. No Brasil, o fato é que nós só excluímos, excluímos, excluímos pessoas... E não preciso ser socióloga para saber o elementar: se tenho um brinquedo e não divido com meu irmãozinho, um dia ele vai pegar o brinquedo na porrada. E é isso que nós fizemos. Nós somos bonzinhos [diz em tom irônico], mas deixamos nossos irmãos na fila do Inamps].

[Uma pessoa que joga aviãozinho de dinheiro e faz as pessoas se amesquinharem é estranho... O Silvio Santos tentou me manipular. Ele ficou puto. Queria que eu desse zero para o calouro... Dizia que eu atrapalhava o programa, pois só dava nota máxima. Respondia dizendo que daria zero só se ele levasse políticos como o Quércia ao programa. Não sou covarde. Continuei dando 10].

[Não aceitei usar o uniforme de presa. Lembro que estava com a roupa rasgada. Disse que não ia trocar. Até a hora que fui interrogada. Peguei um lápis verde, fiz uma sobrancelha enorme, enchi a cara de ruge e desenhei uma boca gigante. Eu tinha um diabinho de camelô na bolsa, que fazia fuc-fuc... Até que me deram uma porrada na cara].

[Fiquei grávida e tirei. Não sei educar uma criança.
Qualquer burro pare. E depois?
Eu não sei o que falar para uma criança. Do jeito que as pessoas educam, tô fora.
Setenta por cento das mães não deveriam ter filhos].

[...se você conhece a mãe natureza, você não tem preconceito].

[O conviver é uma coisa que me emociona muito. Gente me emociona, gente].

 

http://www.terra.com.br/istoegente/363/entrevista/index.htm
http://revistatpm.uol.com.br/62/vermelhas/home.htm

alguns cosem para dentro, outros para fora…

agressor, por que agredido primeiro. com a mesma covardia.
algumas pessoas cosem essa agressão para dentro, outras pessoas, para fora.
o motivo, ele mesmo declara. é o mesmo de sempre…

Homem mata sete pessoas e fere 11 no Japão

Tóquio – Pelo menos sete pessoas morreram e 11 ficaram feridas após um homem de 25 anos atropelar pedestres e atacá-los com uma faca em um bairro de Tóquio neste domingo, segundo informações da “CNN”.

O agressor, que foi identificado como Tomohiro Kato, foi detido no bairro de Akihabara (norte de Tóquio) onde aconteceram os fatos, por volta das 12h30 (0h30 de Brasília), segundo as autoridades policiais.

 

“VIM A AKIHABARA PARA MATAR GENTE. ESTOU CANSADO DO MUNDO. QUALQUER UM ESTAVA BOM. VIM SOZINHO.”

 

, disse Kato à Polícia, segundo a agência local de notícias “Kyodo”.

“O homem saltou sobre outro que tinha atropelado com seu veículo e o apunhalou várias vezes. Depois se dirigiu em direção a estação de Akihabara atacando pessoas ao acaso”, disse à “Kyodo” uma testemunha.

 

 

o complicado e o simplificado

a complicação gratuita nas coisas e nas pessoas é algo hostil para mim. me dá preguiça e me distancia. quando me aventuro a lidar com complicações, o faço de forma embaraçosa! para mim, não há como deixar de questionar infinitamente a utilidade de fazê-lo. deixar o plano do singelo para me submeter ao confuso gera crises consideráveis…
porém, não vejo entre simplicidade e comodidade ou cristalização do status quo qualquer tipo de analogia.
fomos introduzidos numa estrutura – e nos introduziram uma estrutura – estabelecida sobre níveis e níveis de códigos, relações, sistemas, leis e outras formas maliciosamente engendradas de burocratização (restrição) da vida.
partir do simples é tentar raciocinar num plano onde todas essas premissas – presentes em cada milímetro, cada segundo – precisam ser decodificadas,  simplificadas à inexistência; e a vida, conseqüentemente potencializada.

jovens sexagenários e o mal da sobrevivência

“se não se tomar cuidado, o mal da sobrevivência em breve fará de um jovem um velho fausto cheio de lamentos, aspirando a uma juventude que passou sem que a reconhecesse. o teenager já traz as primeiras rugas do consumidor. poucas coisas o distinguem do sexagenário. ele consome cada vez mais depressa, ganhando velhice precoce ao ritmo dos seus compromissos com o inautêntico. se demorar a encontrar a si mesmo, o passado se fechará atrás dele: ele não terá chance de voltar atrás no que fez, nem mesmo para refazê-lo. muitas coisas o separam das crianças com as quais ontem ainda se confundia. entrou na trivialidade do mercado, aceitando trocar por uma imagem na sociedade do espetáculo a poesia, a liberdade, a riqueza subjetiva da infância. e, contudo, se ele reconquistar a si mesmo, se sair do pesadelo, que grande inimigo será para as forças da ordem!”

[r. vaneigem]

homens esmagados pelo armário

os homens estão esmagados pelo armário.
se não levantarmos o armário, é impossível livrar povos inteiros do sofrimento eterno e insuportável. é terrível que mesmo uma única pessoa seja esmagada por esse peso. ela quer respirar e não consegue. o ármario se deita sobre todos os homens, contudo, cada um recebe sua parte inalienável de sofrimento. e todos os homens se esforçam para levantar o armário, mas não com a mesma convicção nem com a mesma força…
estranha civilização de gemidos.

[v. rosanov]

paixão proibida

os olhos que se desviam
por dever
procuram por um reflexo
para se realizarem;
cercados por sentinelas
sedentos por nada
não há fuga
objetivamene racional;
as subjetividades
codificam diálogos transcendentais
os diálogos se decodificam
furtivos e fugidiamente
o êxtase dá-se em centelhas e
lapsos infinitamente fragmentados
enquanto fragmentos
não concebem sonho
mas as notas concebidas pelo súbito
compõem subversão;
enquanto as sentinelas moucas
estupidamente ouvem dissonâncias
âmagos apaixonados dançam em fúria
dentro de esquifes de selos frouxos
invisibilidades convulsionam-se
em beijos de línguas trêmulas
corpos ensandecidos e sedentos por fogo
se enroscam a léguas instransponíveis;
… e uma saraivada de flechas
atinge essências prontas para morrer
de amor

 

 

banalidades do emocional

o tempo é o do relógio[1]. as responsabilidades chamam, no imperativo.
preocupar-se sobremaneira em atende-las não considera, sequer, uma ínfima parte dos meus interesses individuais[2]; mas, o pacto que fazemos[3] com o sistema é precisamente justo: você morre de tédio para não morrer de fome.
 
lá estamos nós, seguindo a fórmula, e acabamos esquecendo que a vida é imoldável à fórmulas.
ao introjetarmos esse trotar apressado do cotidiano maldito e frígido, violentamos as  emoções que se exasperam e se desesperam com o impositivo e incongruente correr dos ponteiros.
a desistência de uma apreciação íntima, densa e arrebatadora das mais diversas coisas pelos sentidos se segue por uma deprimida banalização das próprias emoções: esvaziar as coisas de sua beleza beira a uma castração de si próprio; você planifica a elas e a você. aos poucos e automaticamente as cores parecem se reduzir ao monocromatismo, as músicas à atonalidade, as fragrâncias ao inodor e nós mesmos à bestificação.
se o tempo urge, o amor também tem prazo para realizar-se. não posso perder meu tempo contemplando apaixonadamente as infinitas formas de olhar e sorrir da pessoa que amo, seus tons de voz e gestos; tenho que foder agora, e rápido, para não perder a vez, nem a hora. preciso ser imediatista e calculado; para, em pouco tempo, desconhecer o motivo pelo qual sou capaz de sentir e então serei um ser tão sensível e emotivo quanto um tijolo, e manipulável como tal…


[1] penso agora em outras formas menos covardes de tempo; e no limite um ‘não-tempo’…
[2] não penso em interesses de mercado.
[3] penso na inaceitabilidade que são as obrigações e pactos sociais que pessoas e entidades representativas assumiram por você e para você. na sensação do “dever…” e “ter que…” antes mesmo de nascer e poder optar.

 Hilton Cassiano

akiko yosano (1)

uta ni kike na
dare no no hana ni
akaki inamu
omomuki aru kana
haru tsumi motsu ko

ouça o poema
como negar o carmim
da flor do campo?
delícias a menina
pecar na primavera

“A primavera (haru) é talvez a imagem que retorna com mais freqüência em Midaregami (2). ‘…era para ela o símbolo da juventude, a primavera da vida, quando nada importa mais que a descoberta do Amor e o transporte dos sentidos’ (Dodane, 2000). O Amor é flor vermelha que desabrocha quando somos jovens. Com este tanka, Akiko condena os moralistas que reprovam o amor e que, na época, obrigavam os jovens a aceitar o casamento arranjado (omiai). Ao contrário, para ela, a poesia e o amor são a manifestação sincera das pessoas; por isso, exorta-nos a abandonar as convenções morais e a reconhecer a beleza das delícias primaveris.

 

 

 

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(1)Chegou o dia em que as montanhas, se movem
Falo, mas ninguém acredita em mim.
Por um tempo as montahas ficaram adormecidas.
Mas, antigamente, elas dançavam com o fogo.
Não importa se acreditam nisso, meu amigos,
mas sim que acreditem no seguinte:
todas as mulheres que dormiam
agora acordaram e
se movem.’

De acordo com este poema de Akiko Yosano, a volta à cena literária das mulheres japonesas, no início do século XX, poderia ser representada pelo despertar de um vulcão; e descreve o momento em que o potencial expressivo das mulheres, por longo tempo silenciado pelas restrições sociais, preparava-se para explodir com toda a sua força.

(2) um dos cem livros mais importantes do século XX no Japão.
Midaregami (desordenado + cabelo): Uma leitura que destaca o caráter ao mesmo tempo erótico, libertário e desconcertante que os poemas de Akiko provocam.”

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[Akiko, Yosano. Descabelados (Coleção Poetas do Mundo)]

 

apologia à beleza

 o que é estética?
talvez a estética, assim como a beleza não
seja; não seja como (dizem que) as verdades o são: únicas, estanques e convencionadas, ou talvez sejam sim, mas seja transcendental à nossa circunscrita concepção do verbo ser; circunscrita, impositiva, indiscutível e infalível (…e… conveniente).

prefiro pensar – o mais próximo possível dessa sutil transcendentalidade – que a estética é a subjetividade cabal; a subjetividade cabal e livre; subjetividade cabal, livre e individual.

tal subjetividade elevada ao superlativo de notar a beleza tanto, ou somente – ou também a própria impossibilidade ou no querer percebê-la – nas ditas harmonias, nas proporcionalidades, nas igualdades quanto – e talvez mais atraente, por romper com predeterminismos aprisionadores – nas ditas dissonâncias, desproporções e diferenças.

ditadura da beleza? a beleza não dita, ela é neutra. neutra, onipresente e plural no mesmo instante.
ela não erige estereótipos, tão pouco se erige sob modelos e padrões. a beleza não se preestabelece, ela flui. flui plena nas minúcias elementares que compõem o conjunto, se manifesta nas partes e no próprio produto, ou melhor, nos produtos, pois a beleza não segrega, não conhece a distinção, não sustenta as tirânicas dicotomias, características das limitações humanas; a beleza abarca, e abarca tudo o que quiser ser abarcado, até mesmo o que dizem antiestético, feio.

a beleza é indissociável à existência. ela habita o âmago de todas as formas de existir, moldando-se às infinitas singularidades sem prescrever e sem impor, assim, é liberta, pois numa de suas características primodiais permite que tudo no seu modo específico, autônomo e essencial de ser – e principalmente, de querer ser – seja belo, porque belo é, da mesma forma, aquilo que quer sê-lo, o que Eu julgo e desejo que o seja, e a um só tempo, aquilo que você, em concordância ou não, também julga e deseja…

Hilton Cassiano

lorrane: a puta contra o estado

a venerável Lorrane e seu boicote contra o estado sem filosofia alguma:

 

Garota de programa desafia Lei Cidade Limpa e espalha faixas em Moema

Uma das maiores dores de cabeça para o prefeito Gilberto Kassab (DEM) no cumprimento da Lei Cidade Limpa, que baniu a propaganda externa em São Paulo, não são outdoors, fachadas ou letreiros irregulares.

Uma garota de programa, ou massagista erótica, a depender do valor combinado, tem espalhado faixas por Moema (zona sul), sobretudo na vizinhança do Bahamas, casa de prostituição fechada pela prefeitura.
Proibidas, as faixas já renderam multas de R$ 120 mil a Lorrane, aplicadas pela Subprefeitura da Vila Mariana. A primeira, de R$ 10 mil, foi dada em 6 de setembro.

Problema: por trabalhar como pessoa física, sem registro de empresa (nem poderia), a prefeitura não tem para onde enviar as multas. A solução foi emiti-las em nome do proprietário do imóvel em que Lorrane presta seus serviços, uma casa alugada na av. Jandira.

Nem o caça-faixa, a carrocinha de cachorros adaptada pela subprefeitura para retirar a propaganda irregular, tem dado conta de tanto cartaz. Os fiscais tiram, ela põe. Sempre no mesmo lugar. Insistente essa Lorrane.
No cruzamento das avenidas Ibirapuera e Imarés e na al. dos Maracatins com a av. dos Bandeirantes, uma grande quantidade de barbantes permanece amarrada aos postes e semáforos, vestígio de que dezenas de faixas já foram recolhidas dali.

“Do ponto de vista da poluição visual ela é campeã. Está na cara que é algo mais do que massagem afrodisíaca”, diz o subprefeito da Vila Mariana Fabio Lepique.
Lorrane, 29, 1,75 m, 67 kg, loira, bronzeada, pés 39, calcinha M, neta de franceses, não quis falar com a Folha. À prefeitura, Lorrane diz que as faixas são seu ganha-pão.

Incógnita, a reportagem discutiu preços: R$ 100 a massagem com “final feliz” e mais R$ 1.000 para “serviço completo”. “Vou te causar uma ereção que termina com um relaxamento manual muito gostoso.”

“É uma coisa infernal. Ela é superesperta. As faixas ficam justamente onde os carros param”, diz Regina Moteiro, diretora da Emurb e mentora da Cidade Limpa.
Nos próximos dias, a subprefeitura planeja uma ação conjunta com a Polícia Civil para lacrar a casa de Lorrane e colocar blocos de concreto fechando a entrada.

 

http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u349284.shtml

auto-sabotagem

 

nos compromissamos com inautenticididades, nos apropriamos de sonhos que valem dinheiro, nos submergimos nessa sobrevivência submissa e movediça cujo fundo é um abismo nublado, banal e ilimitado.

  

nos comedimos em nome dos costumes, enquanto os amores e as paixões, que aladas, tentam nos erguer ao êxtase, se digladiam sofrivelmente contra uma gravidade chamada moral: – quantos de nós não renunciamos ao gozo de uma dança descontrolada para ceder a uma pálida métrica de passos controladamente preestabelecidos? 

 

quando terroristas suicidas são capazes de abrir mão das suas próprias vidas por uma ação, e explodem, com elas, uma repartição pública, uma transnacional, um estabelecimento burguês, uma instalação governamental, é possível que, antes da morte total, os únicos verdadeiramente vivos sejam eles próprios, pois os que nos fazem acreditar que são as vítimas, há muito já se deixaram levar pelo coma da lenta morte subsistencial.

a cada ‘sim’ ao ordinário, a cada ‘não’ ao extraordinário lançamos uma bomba sobre um belo e possível jardim de realizações pessoais.

e, ao nos agarrarmos cegamente ao estilo viciado e monocromático de vida, cometemos atos terroristas contra a nossa própria natureza e existência. 

somos terroristas de nós mesmos.

 

Hilton Cassiano
(inspirado em peter pál pelbart)