auto-sabotagem

 

nos compromissamos com inautenticididades, nos apropriamos de sonhos que valem dinheiro, nos submergimos nessa sobrevivência submissa e movediça cujo fundo é um abismo nublado, banal e ilimitado.

  

nos comedimos em nome dos costumes, enquanto os amores e as paixões, que aladas, tentam nos erguer ao êxtase, se digladiam sofrivelmente contra uma gravidade chamada moral: – quantos de nós não renunciamos ao gozo de uma dança descontrolada para ceder a uma pálida métrica de passos controladamente preestabelecidos? 

 

quando terroristas suicidas são capazes de abrir mão das suas próprias vidas por uma ação, e explodem, com elas, uma repartição pública, uma transnacional, um estabelecimento burguês, uma instalação governamental, é possível que, antes da morte total, os únicos verdadeiramente vivos sejam eles próprios, pois os que nos fazem acreditar que são as vítimas, há muito já se deixaram levar pelo coma da lenta morte subsistencial.

a cada ‘sim’ ao ordinário, a cada ‘não’ ao extraordinário lançamos uma bomba sobre um belo e possível jardim de realizações pessoais.

e, ao nos agarrarmos cegamente ao estilo viciado e monocromático de vida, cometemos atos terroristas contra a nossa própria natureza e existência. 

somos terroristas de nós mesmos.

 

Hilton Cassiano
(inspirado em peter pál pelbart)