banalidades do emocional

o tempo é o do relógio[1]. as responsabilidades chamam, no imperativo.
preocupar-se sobremaneira em atende-las não considera, sequer, uma ínfima parte dos meus interesses individuais[2]; mas, o pacto que fazemos[3] com o sistema é precisamente justo: você morre de tédio para não morrer de fome.
 
lá estamos nós, seguindo a fórmula, e acabamos esquecendo que a vida é imoldável à fórmulas.
ao introjetarmos esse trotar apressado do cotidiano maldito e frígido, violentamos as  emoções que se exasperam e se desesperam com o impositivo e incongruente correr dos ponteiros.
a desistência de uma apreciação íntima, densa e arrebatadora das mais diversas coisas pelos sentidos se segue por uma deprimida banalização das próprias emoções: esvaziar as coisas de sua beleza beira a uma castração de si próprio; você planifica a elas e a você. aos poucos e automaticamente as cores parecem se reduzir ao monocromatismo, as músicas à atonalidade, as fragrâncias ao inodor e nós mesmos à bestificação.
se o tempo urge, o amor também tem prazo para realizar-se. não posso perder meu tempo contemplando apaixonadamente as infinitas formas de olhar e sorrir da pessoa que amo, seus tons de voz e gestos; tenho que foder agora, e rápido, para não perder a vez, nem a hora. preciso ser imediatista e calculado; para, em pouco tempo, desconhecer o motivo pelo qual sou capaz de sentir e então serei um ser tão sensível e emotivo quanto um tijolo, e manipulável como tal…


[1] penso agora em outras formas menos covardes de tempo; e no limite um ‘não-tempo’…
[2] não penso em interesses de mercado.
[3] penso na inaceitabilidade que são as obrigações e pactos sociais que pessoas e entidades representativas assumiram por você e para você. na sensação do “dever…” e “ter que…” antes mesmo de nascer e poder optar.

 Hilton Cassiano